Os símbolos religiosos

Rev. Marcelo Smargiasse

“O Ministério Público Federal de São Paulo pede à Justiça a retirada de crucifixos e bíblias de repartições públicas federais. O argumento é o de que os objetos ferem a liberdade de crença e não respeitam o princípio do Estado laico; medida divide igrejas cristãs.”Folha de São Paulo, 05 de Agosto de 2009.

A discussão trazida à tona pelo Ministério Público Federal de São Paulo é um excelente caminho para repensar nosso cristianismo. Sim, porque, apesar de o Estado ser laico, em sua constituição federal fica claro que os que a fazem creem em Deus (vide as páginas iniciais da Constituição).

No entanto, argumentando sobre a “liberdade” que cada cidadão tem de ser religioso à sua maneira, a disputa levanta a bandeira dos “oprimidos” por causa dos símbolos religiosos cristãos presentes em praticamente todos os lugares públicos.

Na matéria publicada em 05 de agosto ficam claras as posições dos participantes do debate: de um lado, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo afirma que os “objetos ofendem a liberdade de crença e sua permanência fere o princípio do Estado laico”. Ainda, que a motivação para tanto está na defesa “da laicidade do Estado e a impessoalidade da administração pública”.

Sabidamente os símbolos e imagens em tais ambientes públicos são de origem cristã católica e, por isso, talvez, haja muitos defensores de tal medida entre as fileiras de cristãos evangélicos e de igrejas cristãs históricas.

Por outro lado, religiosos contestam: “Ter um Estado laico não significa passar por cima da cultura de um povo.”, diz dom Odilon Scherer. Walter Altmann, presidente da IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil), não concorda com uma decisão imposta e afirma que “a retirada [de cruzes e bíblias] fere o sentimento daquele para quem o símbolo é relevante”.

Ainda há religiosos que concordam com tal medida. O deputado pastor Pedro Ribeiro (PMDB-CE) afirma que “a retirada desses símbolos, à princípio, choca muitos evangélicos”. “Mas”, continua, “a bíblia não é o instrumento religioso de todos”.

Dentre os que concordam com a retirada dos símbolos há um que me fez pensar muito sobre o ser cristão em nossa sociedade e o que isso traz como consequências. Ele me fez pensar que há, ainda, uma voz profética entalada em nossas gargantas e que precisa encontrar o seu rumo para ser proclamada. Trago na íntegra o que o padre Demetrius dos Santos Silva comentou no Painel do Leitor da Folha de São Paulo no dia 09 de agosto:

“Sou padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São Paulo por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas. Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A cruz deve ser retirada.

Nunca gostei de ver a cruz em tribunais onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são vendidas e compradas. Não quero ver a cruz nas Câmaras legislativas onde a corrupção é a moeda mais forte. Não quero a cruz em delegacias, cadeias e quartéis onde os pequenos são torturados. Não quero ver a cruz em prontos-socorros e hospitais onde pessoas morrem sem atendimento.

É preciso retirar a cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa da desgraça dos pequenos e pobres.”

Nessa fala, outro lado é também apresentado: esses símbolos não podem apenas ficar por ficar em uma parede; eles têm de fazer sentido, deveriam lembrar aos que a veem que suas atitudes deveriam corroborar com a fé que o símbolo representa.

Muitos profetas da bíblia falaram a respeito disso. Tomemos, por exemplo, Miqueias ou Amós. Ambos denunciavam uma religiosidade vazia, de aparências. Uma hora, bendiziam e cantavam a Yahweh, sacrificavam, jejuavam, davam o dízimo, etc. Outra hora, logo depois daquela, lá estavam maquinando como ganhar mais em cima do povo, pensando em como poderiam oprimir ainda mais o povo já oprimido. O mais revoltante é que faziam assim, “crendo” em Yahweh. Os dois denunciavam o abismo entre o crer e o ser.

Talvez o padre Demetrius tenha razão. É até maldoso e opressor pôr um símbolo religioso em um lugar em que a justiça, o serviço e a legislação não são para todos e contradizem o próprio símbolo exposto nas paredes.

De nossa parte, podemos ter opiniões divergentes quanto a esse item. Mas algo com que certamente concordamos é que precisamos ter voz e ação para fazer valer o cristianismo que anunciamos. Devemos pôr fim ao abismo entre o crer e o ser.

Que Deus nos ajude e nos fortaleça. Amém.