O Profeta e a Sociedade - 04/02/2018

Costuma-se pensar que a religião suplanta o momento vivencial, afirmando-se sempre que o momento em que se vive não se compara com o esperado no além-mundo. O religioso, apesar de conhecer o seu momento e até mesmo de criticá-lo, parece não ver uma relação clara entre o seu pensamento religioso e a sociedade, o seu pensamento religioso e a política.

O religioso parece viver em um mundo outro, em que à espera de milagres e revelações divinas que não passam do individual – quando muito se estendem ao seu gueto religioso – crê que não lhe falta nada, pois se vê como o ponto central da vontade e desígnios de Deus.

Por outro lado, verifica-se também que uma leitura tendenciosa dos textos bíblicos leva o leitor a crer que o papel do cristão é “orar em favor dos que governam”, uma vez que os cargos que ocupam são concedidos pelo próprio Deus. Em certo sentido se pensa que a oração é o veículo único do crente para se exigir que a justiça terrena seja feita, uma vez que se vincula a oração à obediência.

O papel da obediência social é amplamente questionado, principalmente quando esta obediência está mais no sentido de “subserviência”, “conivência” e “alienação”. Ser obediente não é ser alienado.

A sociedade brasileira está longe de ser uma sociedade com justos juízos. Cotidianamente se vê a incapacidade de governar de nossos líderes políticos, somando-se a isso a agilidade de muitos em defraudar o pobre, julgar em causa própria e defender direitos escusos.

Ao lermos o capítulo 3 do profeta Miqueias, vemos que pouco ou nada difere do contexto que agora conhecemos e no qual vivemos. Um contexto de opressão por parte daqueles que detém em suas mãos o poder e a justiça. Todo este momento requer palavras proféticas, proclamadas pela comunidade profética que é a Igreja de Cristo.

A Igreja não pode ficar alheia ao que acontece, bem como também não pode continuar com o infeliz discurso alienado e alienante que assevera que a Igreja nada pode fazer para minimizar o problema. Nossos esforços paliativos como comunidade têm sido um assistencialismo pouco eficaz. Preferimos muitas vezes nos calar diante do que presenciamos.

A voz profética de Miqueias nos perturba porque não somos assim. Não somos intrépidos e corajosos como aqueles homens. O perigo é que, talvez, pensemo-nos como estrangeiros e aliens nesse mundo, nessa sociedade. E então vivemos alheios a ela.

Os desafios principais que este texto nos traz são, em primeiro lugar, de repensarmos nossas posturas cristãs e éticas e de cidadania com relação à nossa sociedade. Se entendemos que nosso papel como cristãos não é o de conivência com as injustiças e com os massacres políticos e econômicos, precisamos definir como reagiremos em face a isso. Como igreja, precisamos nos tornar um pouco mais politizados, mais definidos quanto aos nossos ideais.

Em segundo lugar, precisamos nos compreender como comunidade profética. E como o profeta é aquele que fala em nome de alguém, precisamos nos inteirar daquilo que a palavra de Deus nos fala, para que não usemos discurso destoante. Não podemos usar a palavra de Deus de tal modo que ela sirva os nossos ideais. O Deus de Israel é o Deus libertador. Assim, precisamos agir libertadoramente.

Em terceiro lugar, precisamos repensar nossa autoridade. Calamo-nos e somos calados quando nos colocamos contrários à opressão que se instaura. Precisamos resgatar nossa voz, e somá-la com outras vozes que clamam por justiça. Precisamos mostrar que estamos vivos e que servimos o Deus vivo e que, assim como Ele, não nos conformamos com a opressão dominante.

Mensagens dos Pastores

“Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos.” - Filipenses 4,4

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“Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores.” - Tiago 5,13
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