Rev. Marcelo Eduardo Cunha Smargiasse

Nascido em Guaxupé, MG, graduado em Letras e Teologia, mestre em Ciências da Religião com especialidade em literatura bíblica. Ordenado pastor presbiteriano em 23 de dezembro de 2000 e pastor da IPBut desde maio de 2004. Foi professor de Antigo Testamento na Escola Superior de Teologia/Mackenzie e no Seminário Presbiteriano do Sul.

 

 

499 anos e contando: Ecclesia reformata semper reformanda est

Neste 31 de outubro, abrimos as comemorações dos 499 anos da Reforma Protestante e já se vislumbra a euforia que a pequeníssima Wittenberg terá de dar conta: tantas comemorações e caravanas do mundo inteiro acorrendo para aquela singela, mas importante catedral da cidade e todos, protestantes ou não, a celebrar o dia da afixação das 95 teses de Lutero em suas portas como protesto pelo que acontecia na religião oficial cristã.

É claro que o movimento, resultado dos estudos e interrogações pessoais de Lutero, alcançou proporções mais grandiosas por ter sido impulsionado por seus protetores, pela invenção da imprensa e pelo desejo de alguns de se verem livres do domínio imperialista da Igreja Católica Romana do século XVI. Afora isso, obviamente, o interesse pela verdade... E no apokalipsis (revelação ou desvelamento da História), o agir inexorável e marcante do sopro arrebatador do Espírito de Deus.

A Reforma é um movimento divisor de águas e que pretendia, ao menos pela boa mente de Lutero, reformar a igreja que amava e que por ela também lutava. Obviamente não foi bem isso o que aconteceu — se bem que a igreja romana acabou, mais tarde e com mais frequência, se permitindo reformar.

Somos herdeiros de muitas benesses provindas da Reforma: os cinco solas [Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christos, Sola Scriptura e Soli Deo Gloria] desbancam toda tentativa de merecer o amor de Deus e um lugar no céu ou de buscar a vida eterna de acordo com a possibilidade de cada um de “investir" no Reino, comprando um lugar, literalmente; antes, nos comovem para o fato de que nada somos e que de Deus dependemos inteiramente. Muitos outros pontos dogmáticos importantes e diferenciais herdamos da Reforma. Mas eu gostaria de pensar a respeito do que, em termos gerais, aquela Reforma nos trouxe como herança e o que estamos fazendo com ela.

O primeiro ponto que eu gostaria de propor reflexão é sobre a questão da institucionalização dessa igreja nova, reformada. A princípio, o enfoque nunca foi sair de uma igreja, mas transformar seu modo de pensar e agir após localizar tão claramente seus erros e desvios. Mas ao longo da História, o surgimento dessa corrente reformada, que assim como no livro de Atos a igreja se mostra tão diversa e tão contextualizada, foi afunilando seu modo de pensar, filtrando diferenças mais ou menos gritantes e tornou-se uma outra igreja. A frase tão audaciosa do Rev. Gijbertus Voetius (1589-1676) presente no título deste texto que quer dizer “Igreja Reformada, sempre se reformando”, me faz pensar em uma igreja não satisfeita, sempre em busca de contextualização e de rever erros e tomadas de decisão que ferem a compreensão do que é ser igreja no mundo. Mas somos limitados pela institucionalização. Parece-me que temos menos coragem do que antes de questionar dogmas e tradições e de sair de zonas de conforto em prol do que o Espírito nos faz refletir e entender. O estar sempre se reformando, principalmente em latim, fica mais bonito, parece, somente no papel...

Um outro ponto que gostaria de refletir é a relevância de ser e de se entender protestante no dia de hoje. Afinal vivemos em uma sociedade e em um mundo acostumados com protestos de todo jeito e de todos os lados, até mesmo dos menos prováveis e esperados... Não penso que devamos levantar bandeiras em prol de um ou de outro ponto dogmático, mas penso que teremos sempre motivo para protestar quando o que refletimos e cremos não fizer parte da igreja que constituímos. Em suma, toda vez que nossa reflexão piedosa se deparar com os entraves dos dogmas e da tradição, de acordo com o espírito livre da Reforma, deveríamos levantar voz para um diálogo fraterno, mas contundente. E isso também é ser protestante.

Por último, mas longe de encerrar os pontos possíveis e existentes para reflexão, a Reforma nos deu de herança um espírito livre de interpretação das Escrituras. Vivemos um boom de publicação de bíblias no mundo. Acho que nunca se teve tanto acesso ao texto bíblico como hoje. Mas é incrível como as pessoas ainda não gastam tempo lendo o texto que chamam de “regra de fé e prática”. Mas me refiro a outro tipo de leitura: uma leitura honesta que reconheça o quanto as tradições e os dogmas impõem modos de leitura e que podem haver, sim, não somente um outro texto bíblico que não se conhece (pois está escondido ou mascarado pelos dogmas), mas também outras formas de lê-lo e apresentá-lo. O texto da liturgia de hoje, João 8,31-36, é portador de uma das frases mais enigmáticas do anúncio do Cristo: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Sim, pode ser o evangelista falando do Cristo. Mas o Cristo metaforicamente como a verdade e tudo o que isso acarreta é, sim, enigma. Se não nos preocupássemos em dizer quem é a verdade, mas, antes, no que a frase revela, pensaríamos e refletiríamos que a verdade, em todos os aspectos que consigo pensar, é libertadora sempre. Como reformados, anunciamos libertação possível no Cristo e no que ele ensinou seus discípulos a ser — e não a crer (como princípios ou dogmas).

Que na comemoração dos 499 anos da Reforma Protestante voltemos a orar por uma ação do Espírito que nos encoraje a não nos satisfazer com o que já temos, e que sejamos uma igreja vibrante em busca de uma disposição em aceitar que Deus nos molde e nos modifique. Amém.

Deus todo-amor e de grande compaixão

Rev. Marcelo Smargiasse

Deus todo-amor e de grande compaixão,

Nossos pés adentram tua casa

Na esperança de encontrar-te...

Sabemos que estás aqui,

Pronto a ouvir nosso silêncio

E acudir nossa tristeza e angústia.

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É tempo de retrospecção

Rev. Marcelo Smargiasse

Outro ano chega ao fim. Nas emissoras de TV, nos jornais e revistas, sejam impressos ou mesmo digitais, ganham cena as retrospectivas. Fazer uma retrospectiva, segundo o dicionário Aurélio, é “expor ou apresentar realizações ou fatos passados, numa seqüência que segue a ordem cronológica em que ocorreram”. Não se trata, portanto, de apenas relembrar um fato passado isoladamente, mas relembrá-lo em seu contexto.

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Mensagens dos Pastores

“Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos.” - Filipenses 4,4

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“Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores.” - Tiago 5,13
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